
matéria textual
textos artigos opiniões estudos estranhezas arte cultura políticas culturais comunicação
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Jorge Molder - Grande Prémio EDP Arte 2010

Jorge Molder
O fotógrafo e o seu duplo
Abstract: O presente trabalho constitui-se como uma reflexão sobre o conceito de personificação presente na obra de Jorge Molder, nomeadamente na fotografia assinalada constante da série realizada em 2003, com o título Circunstâncias Atenuantes. No âmbito deste trabalho, entende-se por personificação a representação figurativa de uma ideia ou de uma coisa abstracta. No caso específico de Jorge Molder a ideia de persona / máscara tem sido um dos temas centrais no desenvolvimento e caracterização da sua obra fotográfica.
“O mundo é como um actor no palco: está lá, mas é outra coisa”
(Bernardo Soares in O livro do Desassossego)
A imagem objecto deste trabalho faz parte de uma série de 12 zincos e 16 fotografias, intitulada Circunstâncias Atenuantes e realizada em 2003. A série teve como inspiração o filme The Red Shoes (1948) baseado no conto com o mesmo título de Hans Christian Andersen. As afinidades entre o trabalho do fotógrafo e as imagens do filme determinaram a realização da série.
I
A máscara diante da cara
Diz-nos H. Lefèbvre “As coisas são o que são. E, no entanto, elas não são o que são: elas escondem sempre qualquer outra coisa”. Ao olharmos para esta fotografia de Jorge Molder procuramos, na razão directa do nosso entendimento comum em relação à arte fotográfica, o reconhecimento do retratado. O retrato, neste caso o auto-retrato, surge-nos numa leitura objectiva como imagem análoga do retratado. Contudo, não conseguimos reconhecer na imagem uma correspondência com alguém que possamos conceber realmente. Somos imediatamente transportados para fora dos domínios da percepção objectiva e temos de recorrer às faculdades de representação, nas quais encontramos a nossa capacidade imaginativa repassada de sensações. Estamos, desde logo, no campo subjectivo das ficções. Ou melhor, num espaço que, liberto das amarras do analogon nos permite construir a ficção. Molder apresenta-nos uma construção, uma mensagem cifrada à espera de decifração. Constrói uma personagem que procura situar longe de si, fechando os caminhos que possam conduzir à identificação e ao reconhecimento. Não nos deixa permanecer nos terrenos apaziguadores da mimesis, forçando a nossa interpelação pela estranheza que tal “objecto” nos provoca. A máscara que revela a personagem também a destrói. Ao acentuar a predominância dos olhos, Molder tira-lhes o sentido da sua pertença à homogeneidade daquele rosto transformando-o em algo que já não reconhecemos enquanto humano. Surge, assim, a persona, aquilo que nos permite a representação figurativa de uma ideia ou de uma coisa abstracta. Não estamos mais no domínio da auto-representação, mas sim no da representação. Daí, a obra de Molder não poder ser incluída na categoria do auto-retrato. É certo que o próprio fotógrafo se torna modelo, contudo, não se retrata a si próprio, retrata, sim, personagens que vai criando e que atira para longe de si, acentuando a sua submissão à crítica e ao discurso só possíveis no distanciamento.
O retratista dá por acabada a sua obra quando esta responde às expectativas de reconhecimento do retratado. Na obra de Molder os retratos são ficções, pequenas histórias sem inserção no real, desmultiplicação de personagens que, em performance, cartografam um território não identificado e limitam a nossa possibilidade de reconhecimento. Poderíamos então perguntar qual a origem e o destino de cada imagem? Talvez Molder responda quando afirma “Na nossa memória as coisas que não nos aconteceram são naturalmente mais numerosas do que aquelas que vivemos. É esta evidência tão grosseira que nos afasta de tudo o resto que anda por aqui.” (Jorge Molder, catálogo de La reine vous salue..., 2001.)
II
A série enquanto narrativa
As séries de Molder propõem-nos uma sequência cinematográfica, contudo “não há nada mais longe do cinema do que a fotografia e apesar disso estas fotografias são cinema” (Benard da Costa). Em Circunstâncias Atenuantes, Molder trabalha directamente a partir de imagens fílmicas. No entanto, a imagem apresentada remete-nos para um tempo que se suspende, como se num filme a revelação do fotograma, ao interromper os nexos da narrativa, desse lugar à contemplação, ao comprazimento desinteressado de que fala Kant.
Apesar de presente na imagem Molder assume a sua ausência enquanto narrador, porque o sentido só pode ser construído com o olhar do outro. Talvez, por isso, o seu rosto - que obsessivamente procura ocultar - revele esse desejo de se retirar de qualquer coisa que se consuma simplesmente na imposição de um conceito. Principio, meio e fim: como em três palavras se resolve a obra de um artista! Procurando contrariar este previsível reducionismo, as “fotografias em aberto” de Molder dão-se ao receptor o qual, através do reenvio proposto por Jauss, é investido de um poder de apropriação que transcende a mera apreciação estética. Falamos, pois, de uma obra em circulação. Não de uma obra que remeta para o reconhecimento do autor enquanto dono dos seus enredos, mas de uma obra colaborativa na qual o artista cumpre o papel de enunciador, cabendo ao espectador o acomplishment dos seus sentidos.
III
Uma fotografia sem figurativismo
Na obra de Jorge Molder o conceito de representação não é o da representação naturalista de um mundo exterior. Bem pelo contrário, é na representação de um mundo interior que o seu trabalho ganha sentido. Como o próprio diz “Percebemos quase tudo da vida à excepção de um pequeno detalhe”.
Qual é, então, esse detalhe? Embora o seu medium seja a fotografia, ela serve como intermediária da nossa relação com algo que não está lá enquanto marca de acontecimento. Podemos dizer que também não é a exibição do medium que desperta o nosso interesse. É no rosto do artista enquanto máscara, ou melhor, no jogo que o próprio estabelece entre a sua ocultação e o seu desvendamento, no duplo que o dispositivo lhe possibilita dar a conhecer, que encontramos o studium que nos facilite, no apelo ao entendimento, esboçar um registo. Somos, assim, compelidos a dar seguimento a uma narrativa da qual Molder nos oferece somente uma breve passagem. Por detrás da máscara não está o processo mas sim o texto a precisar de ser escrito. O detalhe, que ainda falta, perdeu-se na ausência de um punctum que não nos serve somente enquanto atractivo do olhar que se fixa e se prende. Mas, como afirma Barthes [Sei agora que existe um outro punctum (um outro “estigma”) além do pormenor. Este novo punctum, que já não é forma, mas intensidade, é o Tempo, é a ênfase dolorosa do noema (…)]. (Roland Barthes, A Câmara Clara, 1980)
IV
A ausência do instante
Ao encontrar o fotógrafo do outro lado, sentimo-nos traídos na nossa expectativa de reconhecer o real porque vemos o nosso intermediário feito personagem que se compraz na construção de uma ficção. Ao trair as nossas expectativas, Molder (o seu duplo) passa a ser objecto e acontecimento construídos num tempo ficcional, sem instante. Mas, devolvido ao espectador, esse tempo torna-o cúmplice obrigatório do fotógrafo na (re)construção dos nexos deliberadamente interrompidos. E só então a sua função é plenamente cumprida. Nas fotografias de Jorge Molder convoca-se um espectador activo, que não se iniba de participar no jogo.
V
Ao espelho
1. Ao situar o seu trabalho no campo da criação de ficções, Jorge Molder recria-se enquanto personificação. Poderíamos, nalguns aspectos, comparar a sua obra com a de Helena Almeida mas, enquanto esta - que se assume como não-fotógrafa – mergulha o corpo na tela para aí se tornar “realidade” pictórica, Molder destrói qualquer tentativa que nos possibilite uma leitura visual assente na exclusiva observação da bidimensionalidade do suporte. Contudo, talvez o consigamos rever no trabalho de Francesca Wodman (na utilização que faz do corpo enquanto representação introspectiva) ou no de Jonh Coplans (na exposição de um corpo também ele sem identidade) mas isso são outros corpos e outras narrativas.
2. “Não, eu não penso que um espelho possa determinar a minha individualidade. Isso é outra questão. Mas ele produz um estranho efeito, porque eu descubro alguém que, de alguma forma, é o meu duplo. Eu reconheço-o. Eu reconheço alguns traços que me pertencem, mas ao mesmo tempo, eu não me reconheço a mim próprio no espelho ou, se quiserem, nas imagens que produzo.” (Jorge Molder, Luxury Bound, 1999)
____________________________
Bibliografia
Jonh Coplans / Ian Hunt / Delfim Sardo (1999). Luxury Bound Photographs by Jorge Molder. Electa
Molder, Jorge (1996). Anatomia e Boxe. Porto: CPF
Barthes, Roland (2006). A Câmara Clara – Nota sobre a fotografia. Lisboa: Edições 70
Alberto Pimenta / Eulália Barros / João Barrento / Y.K.Centeno (1981). A (Más) cara diante da cara. Lisboa: Ed. Presença.
Gil, José (1980) Metamorfoses do Corpo. Lisboa: A Regra do Jogo
Sítio de Jorge Molder na internet: www.jorgemolder.com
_____________________________
Carlos Pimenta
Fevereiro de 2009
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Um obra essencial para compreender a cultura da hipermodernidade

A Cultura-Mundo, resposta a uma sociedade desorientada (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy. Edições 70: Lisboa 2010
Aqui fica um excerto:
[No momento em que se dá a mundialização das indústrias do imaginário e do ciberespaço, a cultura é uma indústria, um complexo mediático-mercantil que funciona como um dos principais motores do crescimento dos países desenvolvidos (…) À antiga separação cultura/comércio sucedeu uma lógica de anexação da cultura pela ordem mercantil, instituindo uma verdadeira economia cultural transnacional. Os debates sobre a “excepção cultural” e, depois, sobre a “diversidade cultural” traduzem de maneira directa o novo peso económico da cultura, que os Estados devem agora defender nas grandes negociações internacionais.]
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Home - O filme

sábado, 5 de dezembro de 2009
Humberto Eco - excerto do excerto
Humberto Eco - excerto de uma entrevista ao Jornal i

A educação deveria regressar às estratégias das oficinas da Renascença. Aí, os mestres podiam não ser capazes de explicar aos alunos por que razão uma pintura era boa em termos teóricos, mas faziam-no de maneiras mais práticas. Olha, isto é o aspecto que o teu dedo pode ter e este é aquele que deve ter. Olha, esta é uma boa combinação de cores. A mesma abordagem deveria ser utilizada nas escolas quando se lida com a internet. O professor deveria dizer: "Escolham qualquer assunto: a história da Alemanha ou a vida das formigas. Pesquisem em 25 páginas web diferentes, comparando-as, e tentem descobrir qual tem informação importante e pertinente". Se dez páginas disserem a mesma coisa, pode ser sinal de que essa informação está correcta. Mas isso também pode acontecer porque alguns sites se limitaram a copiar os erros dos outros.
Quanto a si, é mais provável que trabalhe com livros; tem uma biblioteca de 30 mil volumes. Provavelmente não funciona sem uma lista ou catálogo.
Receio bem que, nesta altura, já sejam 50 mil livros. Quando a minha secretária os quis catalogar, pedi-lhe que não o fizesse. Os meus interesses mudam constantemente, tal como a minha biblioteca. A propósito, se os nossos interesses mudarem constantemente, a nossa biblioteca dirá algo de diferente sobre nós. Além disso, mesmo sem um catálogo, vejo-me forçado a lembrar-me dos meus livros. Tenho uma sala para literatura com 70 metros de comprimento. Percorro-a várias vezes por dia e sinto--me bem quando o faço. Cultura não é saber quando morreu Napoleão. Cultura significa saber como vou descobrir isso em dois minutos. Claro que, hoje em dia, posso encontrar esse tipo de informação na internet em menos de um ai. Mas, como disse, com a internet nunca se sabe.
Incluiu uma lista simpática feita pelo filósofo francês Roland Barthes no seu novo livro, "A Vertigem das Listas". Ele enumera as coisas de que gosta e as de que não gosta. Gosta de salada, de canela, de queijo e de especiarias. Não gosta de ciclistas, de mulheres de calças compridas, de gerânios, de morangos e de harpa. E o senhor?
Eu seria louco se respondesse; significaria rotular-me. Fiquei fascinado com Stendhal aos 13 anos e com Thomas Mann aos 15 e, aos 16, adorava Chopin. A seguir, passei a vida a tentar conhecer o resto. Neste momento, Chopin voltou a estar no topo da lista. Quando interagimos com as coisas da nossa vida, tudo muda. Se nada mudar, somos idiotas.
Quem sou eu
Úteis e favoritos
Arquivo do blog
-
►
2009
(24)
-
►
Janeiro
(14)
- Uma consideração sobre a crise
- Uma explicação para a crise
- Da vida das obras de arte - II
- Relatório do Instituto Nacional de Estatística (IN...
- Um diploma para dançar?
- Da vida das obras de arte - I (continua)
- O lugar do teatro - jornalístico? informativo? art...
- Léo Ferré - Avec le temps
- Darwin - 200 anos do seu nascimento
- A Ideia de Europa - Budapeste
- A Ideia de Europa - Budapeste
- Parte interessada
- nova Lisboa
- Francisco Tropa na Chiado 8
-
►
Janeiro
(14)
-
►
2008
(11)
-
►
Maio
(9)
- Uma conversa decente
- AS NOVAS TECNOLOGIAS E O ACTOR PÓS-DRAMÁTICO
- Prémio Príncipe das Astúrias para orquestras da Ve...
- The National Theatre of Scotland - um teatro sem t...
- NY Times - Rauschenberg e a dança
- Um mapa sensível das cidades
- Os financiamentos do teatro público e do privado
- O teatro em Paris: 1968 - 2008
- Don't make me laugh!
-
►
Maio
(9)
-
►
2006
(12)
-
►
Dezembro
(12)
- 11. Programa do Governo para a área da cultura
- 10. Um livro, acabado de sair, sobre direcção de ...
- 9. Annual review 2006: Arts Council - England
- 8. Portugal: as despesas dos municípios com a cult...
- 7. Facts and figures sobre as artes performativas ...
- 6. Government and the value of culture
- 5. Dados sobre a utilização dos financiamentos púb...
-
►
Dezembro
(12)


